Além do Metal e do Sangue: O Despertar de um Guerreiro no Crepúsculo de Outro Mundo

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Entre ordens implacáveis e uma humanidade esquecida, a história de como uma espada azul rasgou a escuridão para proteger o que a base chamava de "recurso".

As fotos tiradas antes do anoitecer mostram um deserto de tons alaranjados e sombras longas, onde a poeira flutua como cinzas de um mundo em chamas. É a hora dourada, o momento exato em que a luz do sol dá o seu último suspiro antes que a escuridão engula a terra. Mas, para mim, aquela luz moribunda revelou algo que cinco anos de treinamento militar na base tentaram apagar: a capacidade de sentir.

Eu era apenas um reflexo mecânico. Um guerreiro envolto em um traje de guerra preto, fosco e pesado, projetado para responder a cada impulso do meu cérebro. Minha única companheira era uma espada de lâmina azul cortante, cujo brilho tecnológico vibrava com o peso exato da destruição. Minha rotina era simples, ditada pelos comandos do capitão através do comunicador: caçar feras, cumprir a cota, garantir a sobrevivência dos assentamentos humanos. Trabalhar é simples quando você para de pensar. E eu havia parado há muito tempo.

 

O Confronto e a Escolha

Eu caçava uma matilha de feras desajeitadas quando a vi em meio ao caos da poeira. Ela estava separada da manada. Uma figura ereta, de pele branco-azulada e traços finos, claramente não humanos. Seu corpo parecia envolto em uma filigrana orgânica de marfim e ouro pálido, como se uma luz mística e tênue vivesse sob sua própria pele.

O comando da base ecoou na minha mente: "Alta prioridade. A espécie deles é três vezes mais produtiva. Se você vir um, esqueça o resto." Para o capitão, ela era gado. Um recurso energético.

Ela poderia ter fugido. Era mais rápida que os outros e o terreno rochoso a favorecia. Mas ela não correu. Ela se agachou, cobrindo com o próprio corpo um filhote magro de feições delicadas. Ela tremia, mas seus braços eram um escudo de puro amor materno. Ela não me ameaçou; apenas protegeu. Ergui minha espada azul. Hesitei por meio segundo.

Antes que eu pudesse processar minha própria fraqueza, um rugido explodiu à direita. Outra fera, massiva e furiosa, atacou pela lateral — não mirando em mim, mas no filhote.

Meu corpo reagiu antes da minha mente. Bloqueei. O impacto do monstro contra a minha lâmina azul sacudiu meus ombros até os ossos. A fera rebateu, confusa com a resistência, e se lançou contra o meu peito como um aríete de puro músculo. Minha visão ficou turva. Uma silhueta se aproximou na penumbra do entardecer. Então, a escuridão.

O Lar nas Sombras

Acordei com uma dor surda e lancinante na lateral do corpo. Eu esperava garras, dentes ou o frio do metal da base. Em vez disso, vi o teto de uma caverna.

Olhei para baixo e notei que meu traje preto estava rasgado, aberto no corte do impacto. Mas a ferida não sangrava: estava coberta por uma substância azul bioluminescente, suave, que pulsava no mesmo ritmo de um coração. Ao tocá-la, a luz se contraiu. Não havia dor, apenas o efeito anestésico de uma tecnologia — ou medicina — que eu desconhecia.

Ela estava lá, a poucos metros. A mulher alienígena me observava com seus olhos enormes, escuros e fixos. Ao lado dela, o pequeno filhote aproximou-se com curiosidade, inclinando a cabeça. Tentei perguntar "Por quê?", mas minha voz saiu apenas como um sussurro rouco. Eles haviam me salvado.

Foi quando olhei ao redor com atenção. Aquilo não era uma toca de animais. Havia ferramentas de ossos polidos encostadas na parede, esculpidas com precisão. No centro, um círculo de pedras enegrecidas guardava as cinzas dispostas de uma fogueira. Peles estendidas com cuidado serviam de cama e, num canto, pequenos ossos amarrados com fibras formavam brinquedos.

 

A percepção me atingiu como um soco: Isto não era uma toca. Isto era um lar. O que o meu povo estava caçando?

 

Antes que eu pudesse processar o peso daquela verdade, vozes humanas ecoaram do lado de fora. A patrulha da base estava perto. Com movimentos fluidos e rápidos, a mulher pegou a criança e desapareceu por uma fenda escura nos fundos da caverna. Fiquei sozinho na penumbra, ouvindo o som de botas esmagando o cascalho do deserto.

 

A Verdade na Plataforma de Descarregamento

Voltei para a base sob o último raio de sol do horizonte. As paredes de metal escuro, as torres de vigia e o zumbido dos geradores pareciam, pela primeira vez, uma prisão fria e sem vida. Atravessei o portão com o traje rasgado e o sangue seco. Ninguém perguntou se eu estava bem.

Na plataforma de descarregamento, o capitão anotava dados em seu tablet. Quando me viu de mãos vazias, desdenhou: "Complicações... você sempre tem complicações. Olhe e aprenda."

Aproximei-me e meu estômago revirou. Dispostos no chão de metal prateado não estavam os monstros quadrúpedes do deserto. Eram eles. Dezenas de corpos esguios, de pele branco-azulada e veias cor de marfim. Rostos delicados e ancestrais, caçados como animais.

"Dezoito unidades. Bom desempenho", disse o capitão, batendo no ombro de um dos guerreiros mecânicos. "Estas são mais eficientes energeticamente e têm alta prioridade. Amanhã você sai de novo. Conserte seu traje."

Caminhei para a minha cela sentindo o som dos corpos sendo arrastados como lixo atrás de mim. Olhando pela janela estreita naquela noite, vendo aqueles seres inertes sob as luzes frias dos holofotes, a pergunta ecoava na minha mente: A quem eu sirvo? O que estou protegendo?

 

 

 

A Fuga e a Trégua

Perto da meia-noite, um som sutil de dedos roçando o metal me tirou do isolamento. Desobedecendo às ordens, segui o ruído até a área de armazenamento. Lá estava ela, movendo-se entre as sombras da base. Quando a patrulha noturna passou, eu a puxei para trás de umas caixas de carga. Nossos olhares se cruzaram no silêncio opressor. Ela me reconheceu.

Ela retirou de suas vestes orgânicas um pequeno osso esculpido com marcações elegantes e o segurou entre nós. Entendi o recado: ela estava procurando pela sua pequena.

Eu conhecia os pontos cegos da segurança e as rotas dos guardas. Conduzi-a por túneis de manutenção até a área de acesso restrito, onde o cheiro de produtos químicos era sufocante. Forcei o painel de uma porta de vidro e encontramos as gaiolas. Dezenas de pequenos seres de várias espécies tremiam no escuro. No fundo, a garotinha estava encolhida.

Ao ver a mãe, a pequena emitiu um som suave e entrecortado. Um choro de alívio puro. Algo tão genuinamente vivo que nenhum humano naquela base havia me mostrado em anos.

O alarme do sistema foi ativado. Corremos.

Ela me guiou por passagens escuras que eu mesmo desconhecia, até cruzarmos a enorme área de processamento. No caminho, vi tanques de líquido brilhante com corpos flutuando. Em um deles, reconheci um corte profundo no ombro que eu mesmo havia feito três meses antes. Em outro, um filhote que capturei vivo. Eles não eram ameaças. Eram indivíduos.

Arrombei as portas externas e o ar frio da noite nos recebeu. Corremos pela areia fofa, mas a voz do capitão quebrou o silêncio após trinta metros: "Alto!"

Ele estava lá, flanqueado por dois guerreiros mecânicos pesadamente armados. "Aquilo vale mais do que você", rosnou o capitão. "Saia da frente."

Olhei para trás. A mulher segurava o bebê, esperando pela minha decisão. Girei o corpo, liguei os propulsores do traje mecânico preto e avancei contra o meu próprio líder, apontando a lâmina azul diretamente para a sua garganta. O medo nos olhos dele foi a última coisa que vi antes que os alarmes gerais disparassem e nós mergulhássemos na escuridão profunda do deserto.

 

O Julgamento e o Destino

Caminhamos por horas sob o manto da noite até alcançarmos as ruínas de uma antiga cidade de pedra e osso. O que antes fora uma comunidade pacífica agora era um cemitério de fogueiras extintas. Das sombras, os sobreviventes surgiram: figuras machucadas, com cicatrizes recentes, mas todas unidas pela mesma luz azul que corria sob a pele.

Quando me viram, o clamor foi imediato. Um jovem guerreiro alienígena avançou furioso, gritando e apontando para o meu traje preto — o símbolo dos seus opressores. A multidão se fechou ao meu redor, de mãos cerradas. Eles iam me matar.

A mulher interveio. Postou-se entre mim e o seu povo, falando de forma acelerada em seu idioma nativo, gesticulando em direção à filha e depois para mim. O jovem relutou, mas abaixou os punhos. Não era perdão; era uma trégua frágil baseada no respeito mútuo.

Ela caminhou até mim e colocou em minhas mãos um tecido azul bioluminescente, o mesmo usado para envolver seus bebês. Um símbolo silencioso de que, agora, eu podia ficar. Naquela noite, vendo-os cuidar uns dos outros, vi uma humanidade que a tecnologia e a ambição da base jamais conseguiriam replicar.

 

O Último Batalhão

Ao amanhecer, o horizonte foi tomado por uma imensa nuvem de poeira. Os motores da base haviam nos rastreado.

Apontei para uma fenda estreita entre as rochas gigantescas. "Vão", sinalizei para a mulher. "Só há uma saída por ali. Eu os seguro aqui." Ela me olhou fixamente. Não havia gratidão em seus olhos, mas sim o reconhecimento de um igual. Ela pegou a menina e liderou o resto do seu povo para a rota de fuga.

Fiquei sozinho na garganta de pedra. Quando as forças da base romperam a poeira, lutei até o limite das minhas forças. Derrubei trajes, bloqueei disparos, mas o número deles era esmagador. Minha visão ficou turva por causa dos danos no sistema e caí de joelhos, com o traje preto completamente avariado.

O capitão caminhou calmamente em minha direção, com a arma em punho apontada para a minha cabeça. "Você deveria ter ficado onde estava", disse ele, com o dedo no gatilho.

Foi quando a terra tremeu. Uma vibração profunda, que vinha debaixo das nossas botas, fez o capitão hesitar e olhar em volta. O chão de areia explodiu. Feras massivas, controladas ou em simbiose com a energia daquele povo, emergiram das profundezas do deserto. E logo atrás delas, liderando a investida com os olhos brilhando em azul, estava ela.

Passei a minha vida inteira seguindo ordens de metal, defendendo muros que não protegiam nada além de ganância, até que finalmente entendi a verdade. Desta vez, eu escolhi proteger algo real. Talvez não fosse o suficiente para mudar o destino de toda a galáxia, mas era a minha escolha. E era minha.

 


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Источники

  1. As Cavaleiras Místicas da Magias de Tir Na Nog
  2. As Aes Sedai e a Lenda de Galadriel, a Estrela de Tar Valon
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